Poluição

Se as pessoas levassem os relatórios científicos sobre o aquecimento global a sério, os caminhões de todo corpo de bombeiros ligariam suas sirenes e correriam até a fábrica mais próxima para apagar suas fornalhas. Todo estudante do ensino médio correria até o termostato, o desligaria, e o arrancaria da parede da sala de aula, e então iria até o estacionamento cortar pneus de carros. Todos pais responsáveis de bairros nobres colocariam luvas de segurança e dariam a volta na quadra arrancando os relógios de leitura de luz para fora de suas caixas atrás de casas e condomínios. Todo frentista apertaria o botão de emergência para desligar as bombas de gasolina, cortaria as mangueiras e colocaria cola nas fechaduras das portas; toda corporação de carvão e petróleo começaria imediatamente a enterrar seus produtos não utilizados no seu local de origem — usando somente os músculos de seus próprios braços, é claro.

Mas quem ouve falar do aquecimento global através dos noticiários estão desconectados demais para reagir. A destruição do mundo natural ocorre há séculos agora; você tem que estar muito alienado para passar de carro por árvores caídas, chaminés cuspindo fumaça e milhares de metros quadrados de asfalto todo dia sem perceber nada até que isto apareça em uma manchete. As pessoas que tiram conclusões de artigos de jornais ao invés de tirá-las do mundo que elas vêem, escutam e cheiram, estão condenadas a destruir tudo em que tocam. Essa alienação é a raiz do problema; a devastação do meio ambiente é apenas uma conseqüência dela.

Quando as margens de lucro são mais reais que as coisas vivas, quando os padrões climáticos são mais reais que refugiados fugindo de furacões, quando acordos de emissão de carbono são mais reais que as obras no fim da rua, o mundo já está marcado para a destruição. A crise climática não é um evento que ”pode” acontecer, nos espreitando à distância; é o ambiente familia de nossas vidas diárias. O desmatamento não está ocorrendo apenas nas reservas nacionais ou nas florestas extrangeiras; ele é tão real em todo shopping center de Ohio como o é no coração da Amazônia. O búfalo costumava vagar ”bem aqui”. O nosso desligamento com a terra é catastrófico quer ou não o nível dos mares esteja subindo, quer ou não a desertificação e a fome que assolam outros continentes já tenham nos alcançado.

Esse desligamento não saiu do nada; é o corolário da separação imposta entre produção e consumo. Quando só podemos ver o mundo através de uma ótica econômica, ele se torna abstrato, descartável. Alguns ambientalistas reduzem as causas do aquecimento global a desenvolvimento tecnológico “excessivo”, mas o problema é que o capitalismo impõe relações  que promovem ”um certo tipo” de desenvolvimento tecnológico. Nos E.U.A., os maiores produtores de petróleo compraram as patentes de motores de carros mais eficientes e as enterraram, enquanto empresas automotivas e petroquímicas obtiveram sucesso com seus lobbys contra o transporte público. Antigamente Los Angeles tinha um sistema de transporte público decente mas que foi desmantelado sob a pressão de indústria automotiva, abrindo caminho para o trânsito caótico que existe hoje.

Como sempre, a classe que criou crise quer que nós acreditemos que eles são os mais qualificados para remediá-la. Mas não há motivo para acreditar que seus motivos ou métodos tenham mudado. Todos sabem que fumar causa câncer, mas mesmo assim eles vendem cigarros com baixo teor de alcatrão.

A poluição e a destruição ambiental são mais um caso de capitalistas passandos os custos para os pobres na base da pirâmide. Lixões nunca são construídos em bairros caros; nem poços de petróleo. As minas desabam sobre os mineiros e trabalhadores morrem por exposição a produtos químicos venenosos — e os empregados ainda têm a audácia de argumentar que as proteções ambientais são ruins para os trabalhadores pois ameaçam ”seus empregos!” Se não fosse por pressões econômicas, ninguém teria que aceitar esses empregos em primeiro lugar, nem causar tanta destruição no meio ambiente. E os trabalhadores que têm que aceitá-los não são mais bem tratados que os ecossistemas que eles são pagos para destruir; a remoção de montanhas e outras práticas destrutivas tornaram possível que as corporações eliminassem dezenas de milhares de empregos.

O capitalismo não é sustentável. Ele exige crescimento constante; ele não pode recompensar nada além disso. Fique atento a ambientalistas cuja prioridade seja sustentar a economia. Energia nuclear, energia solar, carvão “limpo” e turbinas eólicas não vão concretizar uma utopia livre de poluição. Nem o comércio de quotas de carbono, biocombustíveis, programas de reciclagem ou superalimentos orgânicos. Enquanto nossa sociedade for movida pela lógica do lucro e da competição, estas serão apenas tentativas de manter o atual estado das coisas. Mas não pode continuar para sempre.

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