O Capitalismo Que Tudo Coopta

Quando vemos alguém aproveitando idéias que viu aqui no Bonobo para colocá-las em prática em outro lugar, normalmente, ficamos empolgadas. Afinal, um dos nossos objetivos é ajudar a disseminar os ideais de libertação animal, humana e da Terra, espalhar práticas antiautoritárias e fortalecer a solidariedade e o apoio mútuo. Para nós, quanto mais essas idéias estiverem espalhadas pelo mundo, melhor. Por isso quase sempre ficamos felizes quando vemos outras pessoas copiando coisas que viram aqui, idéia boa é pra ser copiada mesmo (nós mesmas copiamos quase tudo que tem aqui no Bonobo de outros movimentos e espaços que admiramos).
Quase sempre.
Ficamos tristes quando vemos idéias em que acreditamos serem cooptadas por capitalistas. Na última semana, descobrimos que um estabelecimento comercial dentro de um shopping center à céu aberto na Zona Norte de Porto Alegre havia feito um mural inspirado no nosso quadro “Como Fortalecer a Sua Comunidade”. Num primeiro momento, até achamos massa, que também estavam difundindo essas idéias por lá. Mas daí percebemos que essas mesmas idéias, levemente alteradas, dentro de um contexto completamente diferente podem assumir um significado distinto. Se por um lado a nossa intenção era fortalecer as relações humanas dentro de uma comunidade, incentivando a solidariedade e o apoio mútuo através da ação direta, por outro lado, essas mesmas palavras dentro de um espaço estritamente capitalista num bairro de classe alta podem sustentar um discurso de gentrificação e higienização. 
Se comparamos os dois textos lado a lado notamos diferenças sutis, mas que alteram significativamente a mensagem. Em primeiro lugar, a palavra comunidade foi substituída por bairro. Comunidade implica uma rede de relações mutuamente dependentes, pessoas que se conhecem e apoiam umas às outras. Já bairro simplesmente denota um espaço físico, mas não diz absolutamente nada sobre o tipo de relações que existem ali. Essas relações podem até mesmo não existir. Depois, notamos a ausência de algumas frases, que provavelmente não por coincidência, são todas as frases que tratam de apoio mútuo e solidariedade: “Ofereça ajuda aos seus vizinhos”, “Dê comida a quem está com fome”, “Compartilhe o que você tem de sobra”, “Busque o entendimento”,  “Cozinhe a mais e compartilhe”, “Peça ajuda quando precisar”. 
Como resultado, sentimos que usaram uma versão aguada da idéia original para passar uma imagem de estabelecimento “moderno”, “descolado”, afinado com as tendências mundiais de ocupação dos espaços públicos, para simplesmente manter o status quo, manter seus privilégios e continuar lucrando. Algo semelhante aconteceu com o Dia Mundial Sem Carro, movimento mundial que luta contra a hegemonia do automóvel nas grandes cidades. A rede de fast-food McDonald’s, recentemente realizou uma campanha publicitária aproveitando o Dia Mundial Sem Carro para vender o seu produto. No anúncio a rede afirma que nesse dia, as pessoas poderiam passar no Drive-Thru “do jeito que quiserem” e a imagem que acompanha mostra uma menina empunhando uma espada montada em um unicórnio de patins. Afinal um mundo com menos carros é fantasia, né? E querer um mundo assim só pode ser coisa de maluco.
O capitalismo historicamente tem cooptado os movimentos sociais para manter os negócios fluindo. Ele se apropria de algumas mensagens desses movimentos para ganhar legitimidade, continuar lucrando, ao mesmo tempo em que empurra para a frente qualquer mudança significativa no sistema. Isso aconteceu com o movimento feminista dos anos 60, que foi utilizado pelo capitalismo para vender revistas de comportamento, minissaias e anticoncepcionais, e em seguida com o movimento negro nos anos 70, que foi diluído e usado para vender a música Disco e uma infinidade de outros produtos associados à cultura das ruas.
Nas últimas décadas o capitalismo tem se apropriado do movimento ambiental e mais recentemente dos movimento de ocupação dos espaços públicos e até mesmo do veganismo. Temos empresas oferecendo sacolas de pano, refeições veganas, promovendo festas de rua, falando de bicicleta e com um discurso muito semelhante ao nosso mas que, se prestarmos atenção, veremos que é uma versão aguada que não ataca a raiz dos problemas. Essas empresas não têm a menor intenção de deixar de lucrar com a exploração de pessoas, dos animais e da Terra, pelo contário pretendem mantê-lo a qualquer custo. O fato de um restaurante oferecer opções veganas no cardápio não muda muita coisa se ele continua lucrando com a exploração de pessoas e animais. 
Precisamos sempre prestar atenção para não sermos enganadas pelos sedutores discursos do capitalismo. Temos que ter em mente que o que importa não é o discurso, mas as ações. Nem mesmo este texto tem muito valor se não for sustentado por práticas condizentes com estas palavras. Olhe quem está falando e com que intenções. Questione tudo. E, mais importante, lute pelo que você acredita.

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